Domingo, Outubro 07, 2007

A probabilidade do improvável

Qual a probabilidade de algo improvável acontecer? Com toda a certeza já nos aconteceu algo improvável. Muitas vezes. Consideramos então improvável aquilo que deveríamos chamar “inesperado”? Provavelmente sim. É provável que sim.

Todos os dias surge-nos algo que não tínhamos programado ou previsto. Lidamos com isso da melhor forma que sabemos ou conseguimos. Mas não deixa de ser interessante que a vida nos reserve momentos improváveis, aleatória e surpreendentemente inesperados. Viver é mesmo isto. É ser. É poder. Esta liberdade que atingimos apenas quando nos afastamos da rotina e nos permitimos a surpresa. Uma coisa é prepararmo-nos para uma eventualidade, outra é termos consciência que vai surgir ao virar de uma qualquer esquina. Real ou da vida. É assim que nos mantemos atentos e perspicazes. É por isto que tudo o resto vale. A educação, a formação, a capacidade de reagir é forjada do berço ao leito da morte. É por ela que somos humanos. É por ela que evoluímos

Ganhamos pois a noção de uma efémera imortalidade. Cá dentro, presos na nossa memória, na nossa imaginação, somos imortais. Cedo percebemos a diferença entre as duas realidades. Sim, porque a nossa imaginação é bem real. Move-nos. Comove-nos. Excita-nos. Exercita-nos. Vivemos também parte deste mundo pessoal e privado. Aquele que controlamos os mais ínfimos pormenores e momentos. Aqui, tudo é verdadeiramente nosso. Por contraste, a vida fora de nós é gasta e rotinada. Daí a necessidade de nunca pudermos, verdadeiramente, saber o que vai acontecer daqui a uma fracção de segundos. A cada piscar de olhos a nossa vida pode mudar. Acabar. Renascer. Somos apenas isto. Um pedaço de nada, um pedaço de tudo. Somos por isso uma mistura do que vivemos cá dentro e lá fora.

Esperar o inesperado é surpreendente. É como passar numa rua que conhecermos tão bem, olhando-a por uma nova perspectiva. Para cima, verificando como afinal a desconhecíamos. Somos isso. Uns desconhecidos de nós próprios. A cada mudança e reacção conhecemo-nos melhor, mas nunca totalmente. Ninguém conhece alguém. Nunca. Somos um ser tão descomplexadamente complexo que nos surpreendemos com as coisas mais simples. Que em nada são simples. Uma acção, qualquer uma, resulta de biliões de reflexos, automatismos naturais, biológicos, permissões naturais, fricções, pensamentos, biologia pura ao serviço da nossa pequena vontade, que julgamos nos comandar.

A única verdadeira liberdade está conquistada – não com a vida política que nos envolve, mas com a capacidade de aprender, conhecer e perceber que só nos nossos pensamentos somos verdadeiramente livres. Tudo o resto tem regras e são sujeitas a tantos conceitos díspares e forçados, que é preferível acreditar que somos livres. Ainda que presos aos outros, às regras dos outros. Á forja que nos molda e nos torna carneiros de uma sociedade banal que nos ostraciza ao mesmo tempo que nos venera. Nos protege, ao mesmo tempo que nos anestesia.

Acontecimentos aleatórios; momentos frágeis; pequenos indícios que somos finitos e incontroláveis. Ser livre é, afinal, tão fácil!

Quarta-feira, Maio 09, 2007

Até morrer!

Uma lágrima cai levemente, percorre a sua cara, desliza até pingar. Sinto-a nas costas, escorrendo até absorver toda a sua humidade, todo o seu sal.

Era uma tarde triste, um final de dia desolador. Um princípio de noite terrível. Assim imagino. Mas o terror não é chegar… mas partir. Partir em frente, sem nunca olhar para trás, sem nunca duvidar que é o caminho, que é o destino, que é para lá que se encontra o fim. Que venha tarde. Que tenha calma. Quantos dias assim, quantas noite por fim, me esperam? Todas as outras, as que passaram, pouco importam, a não ser para a minha memória, que as tenta reservar. Que as preserva com cuidado, para um dia esquecer que as tem, que as teve, que as viveu. Esta é a nossa vida, aquilo que está garantido. Aquilo porque vale sempre a pena viver. As memórias, aquelas que ficam, as que nos acordam a meio da noite, que nos inquietam, que nos indignam, que nos maravilham, que nos assustam, que nos alegram, avivam, anima, entristecem, endurecem… esta é a melhor parte da vida.

Estar presente, ter passado, imaginar o futuro; este é o grande presente da vida, uma oferta que não ficamos a dever, que não conseguiremos pagar.

O agora, subjectivo, impaciente, presente, caminhando para trás. Lemos a vida do fim para o princípio, sem perceber que corre rapidamente para o fim. Este é o nosso caminho. O regresso ao nada. Espero que esse dia venha tarde, de noite, numa azáfama tão grande que me esqueça de morrer. Que me esqueça que era isso que ia acontecer.

Nunca me esquecerei de hoje. É o dia em que parei por três minutos para continuar a viver. Até morrer!

Quinta-feira, Setembro 14, 2006

Silêncios violentos

Sabemos quem somos, conhecemos aquilo que fomos, um dia. Adia esse pensamento tardio que me incomoda, que me importa, que me revolta.

Por vezes incomodam-me os silêncios violentos. As meias verdades. As pequenas mentiras. Os meios nadas. Tudo aquilo que me ofende ser querer. Ou com vontade.

Paramos por agora. De rir. De sonhar. De sentir. Recomaçemos depois, vivendo em paz, sagaz, sem sabor.

O silêncio cansado de tanto gritar, em surdina. Violência pura, anestesiante. Simples.

Quarta-feira, Agosto 16, 2006

Ruela do azar

Ruela do azar, encurvada até ao mar… sem querer amar. Ou sequer olhar… para trás, à frente do tempo, em pedra. Fria.

Ainda os via, de mão dada. Ela corada, ele não. Envergava um pesado casaco de lã. Ele, como se o frio daquela noite de Verão fosse apenas imaginação, vestia tão pouco que não chegava… ou seria demais. Parecia!

Desceram até à água. Estava quente. Estavam quentes. O sol mergulhava. Eles suspiravam. Acabavam ali. A viagem, o caminho. A vida em frente seguiria devagar. Até vagar…

Este era o cenário. O imaginário de um percurso, sem curso, sem partida ou chegada. Sem dúvidas ou sentido.

Este foi o corolário daquele Verão. O fim anunciado que, até chegar, parecendo tardar, liberta sempre lágrimas salgadas, de recordações fáceis. Lágrimas de cor. É o amor…

Ruela do amor. Ruela da dor.
Se eu soubesse hoje aquilo que amanhã saberei, de que é que me serviria o tempo até lá?
Atalho

Passamos pela vida voando, deliberadamente, efusivamente. Queremos tão pouco, do muito que este mundo nos quer dar!

Mudo, não o mundo, mas tudo aquilo que nada me serve, mas nada se perde...

Mudo... silêncio... sem voz... cadência de algo que se esvai, calado. Então vai... dá tudo por nada, ou nada por tudo.

Quero tudo! Quero coisa alguma, pedaço de nada, percalço inquieto, inócuo...

Por fim, bem no fim da esperança, perdida a perseverança... iníqua mas honesta... refugiamo-nos no nosso trabalho, paspalho, mas nosso.

Trabalho... sem atalho...

Quarta-feira, Março 08, 2006

Estou cansado

Sou um pastor urbano sem ovelhas ou seguidores. Sem vítimas.

É um espaço absurdo. Arrasto os pés na calçada, caminhando por entre prédios feios, ruelas escuras, janelas fechadas com rostos escondidos, espreitando o movimento frenético dos outros. Espreitam a minha vida. Este é o meu mundo. Hoje. Este destino traçado à saída, uma rotina sem fim. Um ritual moderno, vazio... Acabamos hoje aquilo que recomeçaremos amanhã. E depois. E depois. E depois...

Estou cansado. Caído nos meus pés, que caminham sem saber parar. Sem perceber como se cai.

Quinta-feira, Fevereiro 16, 2006

Hoje

Estou revoltado. Acordei sem saber porquê. Mais um interminável dia. Um dia que chega ao fim antes de perceber porquê. Falta qualquer coisa que me force a fuga. De mim. De todos aqueles que me agitam. Que me agridem com a sua estupidez. Da mesquinhez arrogante de quem passa. De quem corre. De quem ri. De quem chora. De quem nada faz. São milhares de vidas gastas que se cruzam com a minha. São milhares de sentimentos frustrados que impedem de ver mais além.

Aqui, desde lado, corro com passos lentos, devagar. Corro na minha cabeça daqui para fora. Daqui de dentro. Daqui tão perto. Daqui tão longe. Perto de ti. Longe de mim. Cada vez mais, cada segundo. Paro de respirar o tempo suficiente para perceber que o ar é importante, que a vida é feita de coisas simples, de sentimentos básicos. Esta comiseração não é mais que ver em quem passa o meu próprio reflexo. Esta é a minha dádiva. Não será todavia para sempre.

Hoje é um dia especial. É apenas mais um dia especial. Um como qualquer outro. A importância dos dias não implica a sua relevância. Elejo este porque preciso. Porque quero. Porque posso.

Vejo-me daqui a dois minutos mais velho. Menos sábio. Cada dia que passa tomo consciência que sei tão pouco. Faz parte do crescimento. Quanto mais sabemos, mais o conhecimento é necessário, como uma droga viciante. Uma droga alucinogénia que obriga a pensar tudo. Cria raízes profundas, faz-me questionar a mais pequena verdade. Se é que existe verdade.

Envelheço com a mesma convicção que nasci. Nenhuma. Não tenho medo da morte, nem sequer da idade. São postulados de qualquer existência. Não merecem o meu respeito. Mas aprofundemos aquilo que nos mantém jovens. Os outros. Aqueles que envelhecem primeiro, que nos servem de comparação. Esses, aqueles que amamos sem dúvidas, sem qualquer contemplação, como um acto reflexo. Esses abrem-nos as portas. Para eles, para ti, que prossigas em frente, à minha frente. Para sempre.
11.582

Não tenho saudades dos momentos que vivi. A saudade é uma amarra que nos fixa ao passado. Tenho uma vida pela frente. Nem que seja mais um dia em cima dos onze mil, quinhentos e oitenta e dois que já vivi. Não sei quantos me faltam. Felizmente.

Esforçamo-nos por adquirir objectos que nada nos melhoram. A sociedade condiciona-nos. Adquirimos para os outros, aquilo que não necessitamos. Resta-nos pouca liberdade. Somos cordeiros deste rebanho sem pastor. Sem ídolos, sem deuses, sem figuras morais ou messiânicas. Chegamos a isto.

Enterramos aquilo em que acreditamos, apenas porque é mais fácil seguir os outros. Até chegarmos ao último dia, cansados, demasiado cansados para perceber que não chegamos a viver a nossa vida, mas a dos outros. Não quero isso para mim. Que me importa se todos caminham em frente? Para uma qualquer frente. Porque estará o meu caminho errado? Apenas porque não coincide com o dos outros? Não! Que me importa se caminho por entre cotoveladas e empurrões, daqueles que seguem no outro sentido, não me interessa se esse é O caminho. Não é o meu! Leva-me ao mesmo ponto que o dos outros. Ao fim. Ao terrível e aguardado fim. Ao incrível e aconchegante fim.

Terça-feira, Fevereiro 14, 2006

O beijo

Cortejo, desejo. Acordado, revejo este sentir, mais que alguma vez, menos que amanhã. Hoje, só hoje, fico quieto. Observo-te no silêncio dos teus murmuros... Ao centro, lá estás. Temo apenas falta de tempo, suficiente, para mais um beijo. Acordar para o amanha, sem sono que me faça lá voltar.

O beijo é a consciência sentida, é não conseguir viver sem ti. É ganhar num só momento, todos os outros que deixei passar. Que não soube cuidar. Que não quis gravar.

Um beijo é o preâmbulo do segundo. Um interlúdio. Sempre um momento. O nosso momento. Para sempre...

créditos da imagem (O beijo, Gustav Klimt)

Domingo, Fevereiro 12, 2006

A dor

A dor fixa-me, lancinante. Fascina-me. Sinto-a sem perceber. Sigo os seus olhos negros. Uma leve brisa no rosto, resto de um sorriso nos lábios. Há um certo odor no ar. Forte. Pungente. Começa aqui a busca daquilo que nos atormenta, que nos põe dormente...

O espaço é inalterável. A cada momento, a cada inspirar, deixamos momentos únicos, logo esquecidos. A memória daquilo que somos dissolve-se em bocados de vida sem consequência.

A cada passo em frente, a cada dia seguinte, sinto a indiferença. Não é diferente de ontem. Mas esqueço-me de bocados substantivos do que fui. Dos cheiros. Dos sons. Até dos rostos de quem já não sinto.

A dor é um sentimento hipócrita. Esforçamo-nos por senti-lo. São distâncias curtas.

Fechado de mim. Fechado para ti. Escondo-me hoje daquilo que há-de vir. Encontro-me sozinho. Espero por ti.

O escuro apenas atormenta quem vê. Há muito que não consigo. Sigo o meu caminho de olhos fechados. Incomoda-me menos o silêncio. Esse consigo preencher com palavras na minha cabeça, com sons da minha memória. Mas sem luz, apenas persigo o caminho. Sozinho. Sem dor...

No inicio...

Tudo começa simples, parece... Uma vida gerada, uma dor esperada. Cada vida que sai, uma morte começa. Caminhamos sem fim. Protegemos demasiado a vida que levamos, temendo a que nos ultrapassa.

(A)Deus

A religião é a desculpa dos Homens para pecar. Tenho uma mão na cruz. É-me indiferente quem lá está pregado. Por agora sou eu.

Octogenário

Uma ruga por cada historia, uma história por cada caminho escolhido. Evitam-se dores, caminhando sem olhar para trás.
As palavras não se inventam

As palavras não se inventam. Apenas aprisionam significados... para sempre...

É uma espécie de vida. Uma necessidade de chegar a sítio algum. Abandonar silêncios incómodos. Mas escrever é muito mais.

Escrever é estar farto do barulho do silêncio. Falando sem se ouvir.

É chegar a conclusão nenhuma, depois de 3000 caracteres.

Esta actividade aparentemente tão intelectual, afinal, mais não necessita que de um grau mínimo de literacia: saber [conseguir] escrever.

A superfluidade daquilo que, muitas vezes por auto-imposição e falta de assunto, somos levados a desenvolver fica sempre aquém do que podemos conseguir, se o esforço for de facto honesto.

Mas se não for, que significa? Nada. O primado da liberdade de expressão não deve ser castrante. A criação não é daqueles que querem, é daqueles que entendem. Sabem interpretar.

Assumo aqui algo mais que a simples racionalidade de ser livre. Este direito abstracto, que exerço neste momento, pode ser confundido com muita coisa e interpretado de tantas maneiras diferentes. Essa é a liberdade de quem lê...

De facto, as palavras não se inventam. Mas permitem dar contornos mais evidentes à imaginação, suprema ferramenta para a criação.

29 Janeiro 2006

Quinta-feira, Dezembro 01, 2005

Uma espécie de vida

Uma espécie em extinção, uma espécie de ilusão. Estas são as nossas perspectivas sobre o que fazemos, onde vivemos, os amigos, ou outros, aqueles, os que passam ao lado. São laços de sangue que escorrem pela memória, que apenas guarda a pena que temos da falta de coragem de partir. Ou chegar. Avanços de uma vida cheia de nada. Nada!

Tudo é mais importante do que aquilo em que acreditamos. Estamos fartos. Sentimos os sonhos dos outros, projecções corrompidas num quadrado de plástico. Quadro naif daquilo que escolhemos acreditar.

Renovam-se laços partidos, perdidos no tempo e no espaço. Recorrem-se a forças que não existem para justificar aquilo que temos medo de perceber. Fico dentro de mim, dentro daquilo que não quero dizer, talvez por medo. Sofro com atenção, para não deixar de sentir a dor que me serve de catarse. Dói sempre, algumas vezes menos, depende. Ofendo-me. Defendo-me assim.

Solto-me depressa. Levo por isso uma eternidade. Violo-me com medo de gritar. Sinto cair. Levanto-me. Lavo-me. Limpo-me de toda a sujidade que carrego comigo. Sempre.

Caminho para o fim. Por fim.

Outubro de 2005
Tocar devagar

Naquele lugar. Escuro. Um muro.
Alto. Largo. Ergue-se sozinho

Dou-lhe um murro. Esmago a mão em cima de nada.
Toco-lhe no ar. Toco-lhe devagar.
Nado no vazio daquele espaço. Baço.

Despi-te de tudo o que deixaste. Não te queixaste.
Tirei-te a vida. A que guardaste. De mim. De ti.

Olho para cima. Quase vejo o que está no outro lado.
Estado de alma. Estádio de passagem.

Mas queimei o toque. Caminho sozinho, acompanhado por outros.
Daquele cantinho, afinal, escaparam todos.

Encosto-me ao muro. Sozinho de todos os outros.

2 de Outubro de 2005
Prefácio de uma vida

O prefácio é difícil. Agarrada à sua angústia, ela continuava agarrada aquela vida embargada. Desgraçada. Destroçada. O prólogo da sua vida. preâmbulo da morte. Prelúdio daquilo que está para vir. Exórdio de quando se veio. De quando fingiu.

Entrou naquela rotina. Não pelo dinheiro. Já não precisava. Algo mais a agarrou. Habituou-se a deslizar as narinas sobre bocados de vidro com pó. Linhas amontoadas, logo esquecidas. Atordoava. Estava sempre atordoada. Menos dor. Mais calor.

Estava visivelmente esfarrapada. Via-se nos seus olhos verdes claros. Do resto de brilho que ainda lançava. Caçava. Sempre. Já sem dor.

Mantinha dois vícios. Aquele e o outro, o mais difícil. Estava agarrada à vida por um fio. Uma linha. Ou duas, em função da noite. Já de dia, quando o sono a atirava para a cama, suja da noite, purgava-se tranquilamente com os olhos semi-cerrados. Agarrados. Acanhados por vezes.

A tristeza não era dela. Era apenas infeliz assim. E aqueles que por ela passavam? Vinham-se enquanto ela se continha. O nojo, não deles, mas dela. Da réstia de esperança de acabar ali o seu sofrimento. Já estava doente. Mentia. Aos outros. E a si.

Caminhando para o fim, ainda mantinha alguns traços de menina. Os seus velhos dezasseis anos, seis dos quais passados na rua. Desamparada por todos, amava cada um por meia hora. Dava-lhes aquilo que conseguia. Que era tudo.

Deu-lhes tudo. Tudo até à morte. Até a morte. Deles, que a mataram!

25 de Outubro de 2005
Contextualizações sobre o fundo de um copo partido

São pequenas emoções, pedaços de nada que caem dentro do copo já vazio. Cheio da esperança que já não tenho. Olho com mais calma e reparo que está partido, estilhaçado no chão sujo onde estou. Mesmo assim, bebo, das esperanças, dos olhares, das vidas que nunca viverei, pensando nas que vivi. Esta é a realidade dos contextos. A saga da vida rodeada por velhos que me agoiram o passado, não me permitindo perceber que já não tenho futuro. Esse futuro que enterrei naquela garrafa que derrama sobre a sarjeta qualquer coisa que já terá sido vida, reflectindo agora a falta dela. Olho mais perto. Sangue. Cortei-me no copo. Cortei-me no lábio. Mas não é o meu sangue que escorre. Já não tenho um pingo dele no meu corpo. Já não sinto um pingo dela no meu corpo. Foi com a esperança. Reflicto tardiamente o que perdi, dos pequenos nadas a que não dei importância, dos laços de cor cada vez mais escuros e esfarrapados. Fico-me com tudo aquilo que tinha, mais aquilo que não terei. Fico sem saber se é a morte, agonia sem dor, que me persegue, se é a minha sombra, que cai, arrastando-me para baixo...

Preciso de acordar deste sonho sem dor, sem cor, desta falta de pudor, desta calçada fria que sinto esmagar o meu rosto, que comprime a minha vida no chão, em vão, na lama, por entre beatas mal fumadas e lixo da vida dos outros. Estou louco. Pedaços de esperança, bocados de alguma coisa, aguarela negra, pecados cinzentos de coisa nenhuma... mas permaneço agarrado à vida, não sei se por medo do que pode acontecer, se por raiva do que já não pode.

A razão dos bichos é mais forte que a dos homens. É pelo menos mais honesta, mais básica, também, mas acima de tudo, não fogem por fugir. Não dormem por dormir. Não matam por matar.

Percorro agora, neste fim anunciado, o caminho que me faz chegar aquele copo partido no chão. Aquele corpo partido. Afinal, o sangue é o teu, mais que meu. Desperdiçaste-te em mim, desperdicei-te sem mim. Vejo ainda reflexos do teu rosto. Daquele cancro que te levou. Daquela dor que uivou. Do caixão que carreguei, antes de dar comigo neste copo. Bem lá no fundo. Tenho que decidir agora se me levanto. Se tenho forças para viver o resto da minha existência a pensar no que poderia ter sido. O que teria sido?

Adormeço desesperadamente sem força. Fico caído até às primeiras horas do dia. Nem sei bem qual. De um qualquer. As pessoas passam por mim, preocupados nas suas vidas mesquinhas. Olham-me sujo no chão. Julgam-me. Julgam que o podem fazer. Já nada me importa. Alguém me estende a mão. Fria. Hesito. Mas vejo depois que a conheço. Recordo-me daquele toque. Não. Foi apenas a minha memória a pregar-me uma partida. Sei agora que estou de partida. Há sangue demais para voltar a trás. Fico para trás. Começo a deslizar pela rua, sinto ainda, antes da luz se apagar, o ruído surdo de uma ambulância, o rosto de alguém que me electrifica. Mas já não sinto. Felizmente a dor acabou, antes do último suspiro, ainda sinto uma réstia de luz que trespassa o vidro e me aquece a cara. Sorrio. Juro que ainda consegui ouvir o meu coração parar, aquele ruído que ensurdece cá dentro, que me reconforta. Texturas de uma vida. Contextos descontextualizados de uma ida. De uma ira.

2 Outubro de 2005
Chuva de raiva

Saio pela porta. Caminho em frente.
Percorro a distância, sem saber
Vejo-me indiferente
Tento nem perceber

Olho para os olhos dos que passam,
Com medo de sentir
Não sei se querem ficar, sem querem partir,
Não sei se sentem, ou se mentem.

Mas tenho raiva deles, tenho pena de mim
Já não consigo pensar
Estou a chegar ao fim...

Chove em mim. Lágrimas vagas. Adagas que espetam.
Passo por vidas. Humanos sisudos. Obtusos. Carrancudos,
Não tenho medo das mágoas. Vagas de mar, que já não cantam
Não encantam. Apenas descansam, passando por mim.

Mas tenho raiva de mim, tenho pena deles
Já não consigo ver o fim
Estou a chegar a mim...

Olho para os seus olhos,
Com medo de mentir
Nem sei se querem partir, sem querer ficar,
Não sei se mentem, se sentem.

Sento-me. Descanso. Sinto-me vazio.
Corrupio de tantas vidas mudas. Sem inspiração,
Passam por mim. Usam-me. Expiram o resto do fogo que já apagaram.
Sem nunca perceber se chegaram. Só transpiração. Entoação. Devoção.

Fico-me. Observo. Imitação de vida. Inibição de vidro. Transparente.
Vejo-me. Absorvo. Intimidação decidida. Interdição aparente.

Chove cada vez mais. Tanto que fico sozinho. Ainda sentado.
Respiro devagar. Retiro-me a divagar.
Chove cada vez mais. Transpiro dos olhos. Tanto que adivinho. Incomodado.
Respiro: Expiro; Inspiro.
Chuva de raiva. Chuva de lava.
Queima-me a face. A tristeza dos outros...
... a destreza de alguns. Doutros.

2 Outubro de 2005
A vida daqueles que pensavam que sentiam

Os inevitáveis. Os intocáveis. Os invariáveis.
São todos iguais. Leves como o peso que não têm
Inesgotáveis. Evitáveis. Intoleráveis.
Somos todos assim. Pensamos que sim.

Sentimo-nos arrasados. Tocados.
Sabemos que não vivemos. Sobrevivemos a nós próprios.

Atacamos a pouca vida que nos deixam ter.
Consumimos a réstia daquela esperança que guardamos. Em segredo.
Guardamos os restos das emoções verdadeiras, como sobras de jantar.
Das que sabemos já não conseguir comer.

Deixamo-nos estar.
Deixamo-nos ocupar. Segredo ao ouvido dos que ainda ouvem.
Cuspo palavras tristes. Custo sublime.

Sentimo-nos atrasados. Trocados.
Sabemos que não sonhamos. Sentimo-nos impróprios.

Conto pequenas histórias de sentimentos que não tive.
Conto as palavras que digo. Respiro-as. Mastigo-as.

Deixo cair uma lágrima seca. Convenço-me que sim. Enfim.
Deixo partir uma lâmina certa. Assim.

Por fim...

A vida daqueles que pensavam que sentiam.
O mito da verdade da mentira. Que já não respira. Suspira.

2 de Outubro de 2005
Entrei naquela pequena sala

Entrei naquela pequena sala. As paredes, lisas, mal construídas, já velhas, estavam vestidas com tecidos fortes cor de damasco. Pareciam aveludados. Não cheguei a tocar. Num canto, uma mesa pé de galo sustentava um telefone, ainda de disco, preto, com uma distinta, embora leva, camada de pó… ao lado, um sofá de dois lugares, coberto por uma manta azul escura, quase preta. Cheguei a pensar que era.

O solo era em madeira. Um velho soalho com caixa-de-ar. Rangia a cada passo, dando um ambiente quase tenebroso. O ambiente era piorado pela réplica de um quadro antigo, que me fixava a cada passo. Procurei o interruptor. Liguei-o. Apenas duas das 6 lâmpadas do lustre de vidro acenderam. Deparei-me com um rosto desfocado e pálido. Era uma mulher. Não tinha mais que 35 anos, como eu. O cabelo era claro, a sua pele reflectia a minha cara, de leve, um brisa que corria pela fresta da porta levantava-lhe a ponta da franja que flutuava ao sabor do vento. Fiquei petrificado, ainda hoje não sei se pelo seu aspecto, se por não estar à sua espera.

Estava numa estrada escura, vazia, com tantos buracos que a circulação era mais fácil pela berma. De repente, ao passar num buraco, rebentou um pneu, com um estrondo, apenas abafado pela água. Saí e verifiquei que afinal dois dos pneus tinha sido furados.

Como a chuva pareceu diminuir, abri a porta e avistei no horizonte uma casa. A chaminé fumava. Corri até ela. Estava distante. Ainda olhei para trás e vi o carro, preto, meio de lado… quase a confundir-se com a noite.

Ao chegar à porta, reparei que estava entreaberta. O alpendre, grande, evitava que a chuva lá entrasse. Estranhei. Ao longe um cão uivava à lua. Um cão ou um lobo. Bati. Insisti. Votei a bater. Nada. Com o pé, fiz a porta abrir e espreitei lá para dentro. A porta dava para uma sala, ao fundo uma outra porta. Vi uma mesa pé de galo com um velho telefone. Ainda bati mais três vezes, como não me responderam, resolvi entrar.

Eram seis e pouco da tarde. Tinha uma última reunião nesse dia. Antes de ir para o carro, passei na máquina de café. Tirei um duplo. Sem açúcar. Bebi calmamente até chegar à garagem da empresa. O carro lá estava. Sinceramente já não tinha vontade de ir à reunião. Sabia o que me esperava. Tratava-se de uma campanha de lançamento de uma refrigerante. Era intragável. A empresa e o refrigerante. Mais o refrigerante.

Entrei no carro. Procurei na consola central um CD com alguma música que ajudasse o café a dar alguma energia ao meu já estafado corpo.

A mulher sorriu. Tentei justificar o motivo porque entrei. Que tinha batido muito. Ela ficou calma, apenas sorrindo. Cheguei a pensar que não falava português. Mas falava.

Quando acabei de me justificar, reparei que estava com um roupão de cetim azul muito claro. Estranhamento dei por mim a pensar como ficava bem com aquela sala.

Ela, com a palma da mão levantada para a minha boca, mantendo uma distância segura, disse:

- Shuuuu!! Não se preocupe, reparei que furou o pneu ali à frente… estava a entrar no duche… da janela avsita-se a estrada.

Reparei então nos seus cabelos molhados, a parte de cima do roupão, junto aos ombros, estava ainda molhada.

- Quer usar o telefone, não é?

Finalmente encontrei um CD. Coloquei no leitor. Virei a chave e sai. Lembro-me pensar que chovia muito. Recebi uma chamada de um amigo, um que estava sempre a tentar arranjar-me namoradas. Demorou um pouco mais que o normal. Estava com um problema qualquer, não cheguei a perceber qual. A bateria esgotou. Fiquei incomunicável. Pense como era bom, numa sexta-feira, a caminho de uma reunião chata, com pessoas chatas, ficar sem telefone. Ficar incomunicável por mais dois dias… isso seria o paraíso. Apenas me preocupei porque o meu sócio, que já tinha saído para a reunião, não tinha levado a documentação toda, mas enfim, o projecto era dele. A minha presença era apenas necessária como forma de solidariedade.

Respondi-lhe, um pouco envergonhado, que sim.

- É pena, não funciona. Vim passar cá o fim-de-semana e não trouxe o telemóvel. Nada. Aceita um chá? Vou fazer para mim. Camomila.

Achei piada. Parecia que alguém estava a gozar comigo. Disse que sim. Já agora, deixava passar a chuva. Ainda lhe perguntei se havia algum sítio com telefone. A resposta foi negativa.

- São cerca de 40 quilómetros até ao próximo posto de abastecimento!

O meu sorriso foi desvanecendo. Acho que ela reparou. A única vez que caminhei tanto estava em recruta e não estava a chover. Logo agora ter ficado sem telemóvel. O João vai ter que me pagar um jantar.

Acordei com o despertador. A primeira coisa que me lembrei foi que tinha de telefonar ao João. Queria pagar-lhe um jantar. Assim que possível. Hoje. Amanhã o mais tardar.

Fiz a barba, tomei um duche rápido e vesti-me à pressa. Saí a correr. No elevador, acompanhei até à cave a D. Teresa do 3.ºB. Sempre gostei daquela velha senhora. Ia com o seu cachorro ao colo. Trocamos umas palavras soltas. Entrei no carro e fui para o escritório.

Ela chegou com o chá. Era um bule velhinho, muito simpático. O aroma era excelente. O cheiro da madeira, que queimava lentamente naquela lareira grande no canto da sala, juntava-se ao aroma do chá. Vinha com uns estranhos biscoitos. Pareceram-me caseiros. Senti outro cheiro percorrer a sala. Era um leve perfume.

Trocamos os nomes, o que fazíamos, enfim, as nossas vidas recentes. Ela sentou-se numa poltrona que estava ao lado do sofá. Com o dedo indicador, sem dizer uma palavra, indicou para o sofá. Percebi que era para me sentar. Foi o que fiz. Ela cruzou as pernas, inclinando-se um pouco para a frente descobrindo um pouco do peito. Muito pouco. Demasiado pouco. Mas o suficiente para me obrigar a fixar outro ponto qualquer da sala. Evitando descer até lá. Não foi fácil.

Ela, entre um golo de chá e uma dentada no scone (afinal não eram biscoitos, mas sim scones… estavam bons na mesma), perguntou-me se não queria jantar com ela um cabrito que estava a fazer no forno. Que podia dormir, se quisesse, porque pela manhã, um autocarro, logo às sete e meia, passava por ali. Acho que os cantos dos meus lábios, desobedientes, subiram, senti que fiquei com cara de parvo. Ela corou um pouco. Mas reafirmou a oferta. Eu, que não me estava a apetecer caminhar quarenta quilómetros à chuva (que estava agora mais forte), pareceu-me muito agradável o tal cabrito assado. Mais do que a pizza com uma semana que tinha no frigorífico em casa. Aceitei! Tentei ainda colocar uma cara de fatalidade, mas não consegui esconder o sorriso traquina.

Como apenas sabia cozinhar bifes grelhados e “cozinha” pré-aquecida, ofereci-me para pôr a mesa e preparar o vinho. Ela sorriu. Tomei como sim. A porta ao fundo dava acesso a um longo corredor. No final, passando por mais duas portas, estava a cozinha. Procurei os pratos e o resto, ela ainda me disse que tinha umas garrafitas na cave, era a porta ao lado da cozinha. Depois de preparar a mesa, de forma simples, desci à cave. Era uma pequena cave. Lá estava a garrafeira. Tinha umas vinte garrafas. Procurei um vinho do Douro. Lá estava. Voltei para cima. Ao subir as escadas, reparei que ela cantava, murmurando.

Depois de abrir o vinho, deixei-o perto da lareira, ela chegou. Disse-me que dali a meia hora estávamos a comer. Acenei afirmativamente a cabeça. Ela, reparando na minha roupa molhada, perguntou se eu não queria tomar banho e secar a roupa. Eu disse que já estava a incomodar demasiado.

- Disparate.

Pegou na minha mão e levou-me escada acima (o mistério da segunda porta estava desvendado. Era o acesso a uma escada em caracol. Era de madeira. Rangia a cada passo que dávamos. Descobri um pequeno hall com duas cadeiras (pareciam confortáveis) e outras duas portas. Uma deveria dar para o quarto. Abriu a outra e fez-me entrar na casa de banho. Ainda tinha vapor do seu duche.

- Esteja à vontade!

Disse-lhe que nos podíamos tratar por tu. Afinal, temos a mesma idade e não costumo jantar com desconhecidos. Ela riu-se.

- Está à vontade! Já te trago alguma coisa para vestires.

Não sei porquê, senti uma familiaridade e um conforto nas suas palavras. Parecia que nos conhecíamos desde sempre.

O João chegou atrasado. Mais que o normal. Tínhamos combinado às nove no Twister. Ele apareceu às nove e meia. Chegou como sempre, cheio de problemas por resolver, tinha ainda umas coisas para fazer depois do jantar. Percebi quais eram as coisas.

Estava a passar o chuveiro pelo cabelo, retirando o shampoo, quando ouvi a porta abrir.

- Está aqui algo para vestires.

Ela riu-se e levou a minha roupa, fazendo qualquer comentário sobre a gravata que não percebi bem.

O resguardo do duche era quase transparente. Não tinha reparado. Em cima da bacia estava um roupão turco cor-de-rosa. Percebi o riso. Ela insistiu a noite toda que era salmão, rindo sempre no fim.

O cabrito estava muito bom. O fogão era daqueles a carvão, tão antigo com a casa. Ela mantinha aquela propriedade como a tinha herdado. Tinha sido construída pelos seus bisavôs e tinha sido passada aos seus tios-avôs, que, como não tinham descendência, deixaram à sobrinha-neta favorita e, por acaso, única.

Depois do jantar, passamos novamente ao sofá, desta vez sentou-se ao meu lado. A casa não tinha televisão. Apenas um rádio antigo. Perguntei-lhe se funcionava. Ela levantou-se e ligou. Claramente funcionava. E bem. Ficou uns instantes em frente à lareira, debruçada sobre o rádio, enquanto sintonizava. Quase fiquei engasgado. Via-se nitidamente todo o seu corpo nu. O cetim azul-bebé transformou-se em transparente. Desta vez não consegui desviar o olhar. Ela não reparou. Se reparou, parecia não se importar. Ainda ficou algum tempo até encontrar uma qualquer música. Apenas percebi que era levemente romântica. Já não conseguia ouvir mais nada.

- Gostas desta?

Eu disse que sim. Ela, depois de olhar para os meus olhos, olhou para o espelho que estava em cima do sofá. Viu como estava. Desta vez não corou. Antes pelo contrário. Aproximou-se de mim.

O João tinha trocado de carro. Tinha agora um descapotável. Desde pequeno que me dizia que iria ter um. Foi ontem. Um sonho que realizou. O meu, neste momento, era pagar o ordenado aos meus dez colaboradores. Tinha perdido três contas importantes. O nosso preço era já um pouco alto, principalmente por causa dos últimos investimentos em espaço. Tínhamos aberto uma representação em Madrid, a renda era altíssima e ainda não facturávamos lá o suficiente para os custos. O meu irmão mais velho, também sócio, era o responsável.

Ela perguntou-me:

- Gostas do que vês?

Disse-lhe que sim, embora já sem conseguir ver. Tinha-se afastado da luz.

Aproximou-se de mim, quase a tocar-me. Com a ponta dos seus dedos, desfez o laço do robe de cetim azul. Depois, despiu lentamente. O cetim macio, antes de cair no chão, deslizou pela minha perna. Todos os meus pêlos eriçaram, não sei foi o tecido, se a imagem que surgiu na minha frente.

O João estava excitado de mais. Só falava no carro novo. Queria agradecer-lhe por ter gasto a bateria do meu telemóvel. Mas não dava. Já tinha esquecido o seu problema de sexta-feira. Agora, apenas o carro interessava.

A sala estava quente. Demasiado quente naquele momento. As paredes tinham ficado mais pequenas. Toda aquela sala estava concentrada na distância entre aquela mulher desnudada e o meu roupão cor-de-rosa… ou salmão, naquele momento, só pensava em tirar o peixe…

Foi ela que, ajoelhando-se no meio das minhas pernas, desapertou o cordão e abriu as abas sobre os meus braços, aninhando-se de seguida. Não ouve beijo, não trocamos carícias, apenas ficamos umas horas (ou uns minutos) assim. Tinha acabado de perder toda a noção do tempo. Apenas a chuva que batia na janela acompanhava um esporádico crispar da lenha que nos aquecia… ou que nos arrefecia. O seu corpo estava quente. O meu estava demasiado quente.

Embora já não aguentasse aquela situação, extremamente confortável, mas com demasiada tenção sexual, mas como não estava em casa, deixei que ela liderasse a situação. Foi então, mesmo no último minuto do meu desespero, que senti a sua língua tocar no meu lábio superior. Mordiscou-me depois o inferior. Era a minha deixa. A sua mão esquerda tinha envolvido o meu corpo e acariciava-me ao de leve as costas, com as unhas. Agarrei-a pelas ancas e deixei-a sozinha no sofá, afastei-me, sem nunca descruzar o olhar.

Desdobrei uma manta felpuda que estava dobrada ao lado do sofá. Reparei que tinha um homem a ser caçado por uma leoa… achei o desenho apropriado. Estendi-lhe a mão. Ela, enganchando a ponta dos seus dedos na minha, levantou-se. Deitei-a sobre a manta, mesmo ao lado da lareira. Cobri-a com o meu corpo. Já estávamos os dois demasiado excitados. Foi nesse preciso momento, depois de meia badalada do relógio alto que ficava ao lado da porta, com um pêndulo dourado até ao chão, que entrei nela. Penso que ainda ficamos assim alguns minutos, parados, um dentro do outro. Foi então que ela me virou, ficando em cima de mim. Lentamente as suas ancas começaram a rodopiar. Em movimentos circulares e cada vez mais rápidos. Apenas interrompendo a cada várias voltas para dar uns pequenos saltinhos.

O João, olhando nos meus olhos, percebeu que algo se passava. Parou a descrição do seu novo carro e perguntou-me:

- Ó pá! O que tens? Estás com cara de caso. Estás com cara de palhaço!

Obrigado, disse-lhe com um sorriso de orelha a orelha.

- Convidaste-me para jantar e eu para aqui a falar na porra do meu carro novo. Já te disse que é preto?

Só consegui rir.

- Desculpa, lá estou eu. Tás com cara de caso.

Acordei de manhã, era cedo ainda. Estava sozinho, nu, numa cama de ferro branca. Em frente, uma fotografia a preto e branco, grande. A cama era grande. Quase do tamanho do quarto, que era pequeno. Senti um cheiro de fatias douradas que entrava pela porta e me obrigou a levantar. Desci a escada, vestido apenas com o robe azul que estava aos pés da cama. Virei e na mesa da cozinha estava um prato cheio de fatias, um bule com chá e ela, magnífica, apenas com a minha camisa entreaberta sentada num banco de três pés. Tinha as pernas cruzadas. Aproximei-me e beijei-lhe ao de leve na face.

O João estava realmente interessado naquele meu sorriso parvo. Disse-lhe o que aconteceu, sem pormenores. Apenas que tinha conhecido a mulher da minha vida. Do pneu furado, até ter passado a noite numa casa velha. Não sei se ele acreditou logo. Mas no fim perguntou-me:

- Que coisa. Só tu… E o que aconteceu… Aconteceu alguma coisa. Essa cara…

Chegou a conta. Mesmo a tempo! Disse-lhe que tinha que passar ainda no escritório. Paguei a conta, despedi-me dele e saí:

- Cão! – Disse o João, com um magnífico sorriso trocista, enquanto que afastava da mesa.

O João acompanhava-me nas minhas aventuras desde há muito. Foi meu colega desde sempre, de colega passou a amigo, chegou a seu sócio numa aventura empresarial fugaz. Sempre amigos. Era uma constante na minha vida.

O João era piloto. Tinha abandonado o curso de Direito ainda a meio. Como o pai era piloto da Força Aérea, desde muito novo que pilotava. Foi, pensou eu, uma escolha natural.

Chegamos a morar juntos uns anos, dividíamos uma pequena casa no Bairro Alto, antes de comprarmos casa. Acabamos por ficar a morar na mesma zona. Eu tinha comprado um sótão de um prédio antigo. Tinha apenas uma divisão comum – grande – e uma casa de banho. A cozinha estava inserida na divisão principal. Ele comprou um apartamento enorme, com vista para o Tejo. Tinha sido oferta da Tia Clara. Era uma senhora distinta, já com 80 anos, morava numa casa em Belém. Era a Viscondessa do Regadio. A família dele resultava do “cruzamento” da alta burguesia endinheirada do Estado Novo, com a empobrecida velha nobreza. O título fora atribuído por D. Maria II, já no séc. XIX.

João ligava pouco ao seu passado. Era um homem do presente. Fora educado num Colégio em França até aos 10 anos, já que o Avô, Embaixador em Paris, tinha sido responsável pela educação do filho, enquanto os pais estavam em Africa, ao Serviço do da Pátria e do Estado. O Pai era uma personagem engraçadíssima. Era Major-general. Era também dado à boa vida. O João tinha-lhe herdado isso.

Conheci o João no colégio D. Maria Pia. Fomos desde aí sempre colegas de carteira, de saídas e, mais tarde, na noite. Chegamos a ter um pequeno bar. O negócio até corria bem, mas quando acabei o curso de Direito, tomei duas opções. Abandonar aquela cansativa vida, pouco digna a um jovem advogado. Depois do estágio e do exame à barra, que passei, ainda exerci uns dois anos. Foi aí que tomei a minha segunda resolução. Abandonar as leis. O meu irmão tinha-me aliciado para criar um negócio que achei interessante. Ele era Director de uma agência de publicidade. Estava cansado de trabalhar para os outro, como eu estava cansado de trabalhar para mim, e para clientes que pouco ou nunca me pagavam… fui trabalhar com ele.

Formamos a “PontoCom”. De início não gostei, do nome, depois, acabei por achar que soava bem.

Trabalhávamos maioritariamente com lançamento de produtos, branding e Internet. Chegava. Decidimos alargar para Espanha no dia que o meu irmão aceitou o pedido de casamento da Cármen. Dali até à mudança para a capital do país vizinho foi um salto.

Fiquei um pouco desapontado, mas pensei que seria uma oportunidade que não deveria ser desperdiçada. Afinal, a Cármen era uma designer de talento e a equipa ficava quase formada.
Quando nos despedimos, reparei que não chegamos a trocar o nome, o telefone, nada. Era melhor assim...

Dezembro 2004
Parece

Parece-me hoje que a noite acordou de manhã. Sem saber bem porquê, tenho dúvidas hoje que o amanhã vai chegar. Porquê? Não sei. Nem sei se é importante.

A minha cabeça está dando voltas alucinadas, despertada para o sono que lhe tento infringir. Já não ouço o som que me atormenta, já nem consigo-me ouvir, tal é o barulho que percorre a alma, que já nem é minha.

Faço força para parar e de repente aparecem na minha cabeça estes versos:

Percorro a minha memória recente
Esperando nela encontrar
Que para além do sentimento quente
Encontre aquilo que te faz vibrar

O som, o cheiro, o sentido
Aquilo que ficou partido

É certo que de tudo o que me lembro
Apenas uma voz ouço gritar
Por isso não me arrependo
Daquela primeira falta de ar

Vou esperar que me encontres
Vou deixar que me descubras

O som, o cheiro, o sentido
Daquilo que se quer unido

20 de Junho de 2003
Trovões amarelos

Trovões amarelos libertam-se da minha cabeça, rasgam-me, a dor que em mim está não é mais que a raiva que comprimo, que não liberto. Hoje a minha vontade é perder-me, amarrar-me ao vento forte que sopra em espiral.

Algumas gotas de sangue são o bastante, escorrem pela minha face, com a mão limpo essas lágrimas da carne, já fria, já no fim de qualquer prazo de validade.

Desesperado com a força que sai de mim, pois não aguento a merda da pressão constante, finalmente sou um, finalmente estou no fim de mim mesmo.

Corro para qualquer lado, sem destino traçado, corro de mim, sem nunca me apanhar, ou perder. Chego a tocar na minha sombra, chego a sentir um calor de quem viola um santuário e depois se arrepende, não por ser mau, mas por não conseguir evitar a leve cobardia de ser deus.

21 de Novembro de 2000
Só Um Pouco de Amor

Tons abafados de vida em fricção constante provocam cancros irracionais, substratos mentais de uma consciência apagada, morta, acordada de uma vida de criança. Sinto-me a sentir, não importa o quê, ou sequer por quem. Pensamentos oblíquos encontrados pela esperança comum da imortalidade. Já não sou criança, há muito que não gatinho, que não dependo muito para subsistir, só um pouco de amor, no entanto não teu...

11 Novembro 1999
O Mar

Caminhava pela praia, devagar pois só assim conseguia ouvir os teus pensamentos, junto ao mar tudo é mais fácil, tanta água, a puxar os sentimentos para fora do meu corpo; saem lamurias que logo se afogam. Continuo sozinho, agora por opção, sem a alegria que me acompanhava antes, hoje a solidão faz parte da minha vida, por opção. Já não penso em ti, para quê, para tornar ainda mais difícil o meu passeio? Não, basta! Hoje mandei o teu amor fora, abandonei-me ao relento, aliás já escureceu, a lua, lá em cima, ilumina-me a alma, mas qual? Já não a tenho, até ela me abandonou.

Novembro 99
Deste-me dois beijos quando só queria um

Reparo agora na dimensão que as coisas têm, pensamentos incompletos que procuram definição lógica, rodeados por resquícios Neandertais de imortalidade fugaz. Tenho inconscientemente a consciência plena que nesta noite só entrei naquele espaço porque lá estavas, tudo o resto era um cenário imperfeito de uma representação de Kafka. Pessoas desfocadas, uma mistura de cores e odores assumindo formas disformes, não te vi, nada vi, quando a esperança de te ver, de te sentir (ainda que separados por um braço de madeira) estava por um fio, um rosto, o teu rosto focou-se-me na alma, naquela fracção de segundo ficaste tatuada na minha retina, para todo o sempre. Deste-me dois beijos (apenas queria um) não to peço já, no entanto sonho com o dia que mo roubares, expludo, não de ansiedade, que não tenho pressa, por ti espero até que o sol se apague para sempre, espero até que o fim se realinhe com o princípio, como um ciclo primário em convalescência, nesse dia estou certo que haverá uma chuva de anjos nus, com as asas em chamas, pingando gotas de terror.

Sabes, (deves saber) tens o segundo sorriso mais bonito do mundo, verdade, olha que já vi muitos, mas não se comparam ao teu, o primeiro é o meu, quando me lembro de ti. Nesta vida pouco tem importância real, vivemos no século da relativização, nada é definitivo, só o tempo, o seu consumo provoca conscientemente desorientações crónicas, pensamentos redundantes e fúteis, perspectivando lógicas incompletas e em evolução, antíteses primogénitas de um deus menor. Sei que não me amas, mal me conheces, não sei se queres, se precisas ou podes, que importa, hoje, neste preciso momento o importante é que ainda me estás a ler, isso significa muito mais do que possas imaginar. Esta confusão ordenada de ideias são o resultado inicial de um percurso, um caminho que a cada curva grita o teu nome, desesperado pela confusão organizada das nossas vidas mesquinhas e cobardes, vividas a pensar e sentir pelos outros, como os outros, mas sempre sozinhos, acredito que serás sempre minha, sabes disso. Posso não conquistar o teu corpo, mas morro feliz, neste momento, se me disseres que te prendi o espírito.

5 Novembro 1999
Recordo-me hoje

Recordo-me hoje, nem sei bem porquê, das discussões, altas, fortes, apaixonadas, mas consigo-me lembrar de ti, hoje compreendo como foi duro, tão duro, quando não voltei a entrar em casa, quando, sem que tu soubesses porquê, como não subi àquele andar, onde vivias, onde vivíamos. É tão difícil sermos amados, verdadeiramente amados, hoje sei disso, não damos assim tanto valor a alguns pequenos nadas que nos fazem falta quando os perdemos, tu perdeste-me, no final fui eu que te perdi. Quando não voltei, acabei contigo, pago essa opção todos os dias, até morrer, sei agora o que sentiste, a traição de já não ser amada, a traição de nunca mais estarmos juntos, ainda está magoada comigo? Ainda me odeias? Nunca mais nos vimos, a distância tem a perversa vontade de fazer esquecer os maus momentos e realçar os bons, e tivemo-los, muitos, tantos. Ainda está magoada? Nunca mais me viste. Quanto a mim, vejo-me todos os dias, quando faço a barba, penteio o resto de cabelo, o resto de vida, odeio-me, não tanto por mim, mas por tudo o resto que está a boiar em torno da minha vida, que já não é tua, mais um dia foi. Mas nunca mais será.

Outubro 1999
O Caminho estica

O Caminho estica, a cada passo fico a dois do fim, conflitos canibais atormentam-me, estou cansado da falta de fôlego, das estrelas com brilho e dos tons claros do dia, sinto-me ofuscado pela noite, no entanto aqui estou, para ficar, pelo menos um minuto, 60 segundos de pensamentos estropiados, esventrados, ensanguentados pela angústia do fim, seja ele qual for, mas qual é? Um dos que se me afiguram, fáceis de atingir? Até são, com um revolver, muitos milímetros de chumbo seco, com sangue frio primo o gatilho, o projéctil sai e, como se estivesse do outro lado, sinto um corpo ridiculamente dormente penetrar-me, salpicos de carne caem no chão, dali não passam, penso... umas gotas de sangue ficaram nas tuas mãos, a maioria no meu corpo. Não atingiu nenhum dos órgãos vitais, apenas rebentou, pelas costas, o meu coração. Para que serve mesmo, um órgão apêndice, desumano, desalinhado com tudo o que quero sentir, pedir, já pensei pedir-te desculpa, não sei bem de quê, de tudo, de nada, de não te ter feito mais, ou menos, de ter estado sempre lá, ou de não ter estado, que merda, peço-te desculpa de te ter amado, de nunca te ter mentido, no entanto não me perdoo, apenas porque não me apetece, é tudo, por hoje.

27 Outubro 99
Cigarros

Um cigarro, dois, três, todos os que fumaste, eu não fumava. Hoje vejo neles um refúgio, com o seu fumo clareio os meus sentimentos, acendo-os como antes apagava os teus. Não sabia fumar, como não sabia viver sem ti. Hoje vivo, sem ti, sem esses teus irritantes cigarros, hoje vivo com os meus, troquei-te por uma caixa de cigarros.

Outubro 1999
Os teus olhos

O barulho das pessoas abafava o teu som, não te ouvia, que importava, os teus olhos falavam comigo, o seu brilho era quanto bastava. Ali, naquele bar, senti-te com força, tenho pena de não ser teu amigo, poder ver-te, estar contigo, com os olhos mais lindos que já alguma vez vi.

São castanhos, de uma profundidade tal que todo o universo cabe lá dentro e tu sabes disso. Não sou o primeiro, certamente, a dize-lo, mas os teus olhos são fogo, fogo que brota de uma orquídea selvagem, também são água, livre, presa no entanto pela sua força, a sensibilidade acrílica dos homens normais jamais chegarão ao elemento fundamental que engrandece os olhos, a alma, personalidade gritante.

Agora és a minha musa, como musa que és posso amar-te sem ser correspondido, posso ter-te sem estares comigo, posso desejar-te sem querer resposta.

És selvagem, já o disse, uma imensidão de sentimentos estão concentrados em ti, nos olhos, os mais bonitos que alguma vez vi, os teus, só teus, mais ninguém os tem, ou teve, nunca, a tua independência frágil é quanto basta para que nunca os entregues. Nunca os entregues, só a mim, que os venero, que te venero sem querer nada em troca, rigorosamente nada, só a tua luz, só a tua alma que entra em mim com um simples olhar, com um singelo franzir de olhos consegues fazer transbordar sentimentos, puros.

Hoje escrevo sobre os teus olhos, aliás não consigo pensar noutra coisa, foram marcados como brasa no meu pensamento, jamais sairá, jamais recuperarei desta madrugada, foi quando te vi, foi quando vi os teus olhos.

Até sempre, que nos encontremos um dia por entre pessoas estúpidas a discutir coisas insignificantes, com vidas desperdiçadas nesta vida concentrada e ridícula do stress urbano, numa sociedade materialista e materializada, fragmentos da memória, fragmentos dispersos de humanidade, espezinhados por todos, menos por ti, quero dois beijos, teus, em mim, que sei apreciar-te como nunca ninguém o fez, como nunca ninguém o fará, jamais sentirás de outro homem o que eu senti por ti, pelos teus olhos, pedras preciosas, cristais de gelo quente, que me derreteram… até sempre.

5 Setembro 1999
Sem Título

Tudo na puta da vida parece doer, amar dói, deixar de te amar mais ainda, viver também, sem ti pior. Porra.

Deixei de tentar ser feliz, ser feliz dói, não durante, mas depois. O depois é que estraga tudo, antes é uma merda, durante é bom a seguir vem a derrota. Ela veio.

1 Agosto 1999
Escova de Dentes Cor-de-rosa

Entrei na casa de banho, tinha acabado de comer, peguei inconscientemente na escova de dentes, como em todos os outros dias mas este foi especial, reparei que lá estava a tua, cor-de-rosa, erecta, ao lado da minha. O amor acabou mas as escovas de dentes ficaram, juntas, ainda não tive coragem de a jogar fora, era todo o nosso amor que está lá, naquelas escovas de dentes, a tua é cor-de-rosa. Sei que nunca mais lavarei os dentes como antes, até este simples acto consegue recordar-me da minha solidão, da dor de não ter quem pegue na escova de dentes, cor-de-rosa.

Saí da casa de banho com uma lágrima a fugir, corria mais que eu, fez-me tropeçar, tentou levar-me ao chão. Mas eu limpei-a, com toda a minha força, sei hoje que a lágrima não foi por te ter perdido, já não choro com isso, foi de faltar a coragem de a jogar fora, pois aquela escova cor-de-rosa, muito mais do que todas as palavras podiam um dia, qualquer dia, descrever lembram-me de ti.

Agosto 99
BEIJOS onde tu quiseres...

Os beijos nunca são onde eu quero, sempre onde tu deixas... onde pedes, os que roubas, nunca onde eu quero, os que dou.

BEIJOS onde tu quiseres... aí está uma grande mentira, não é que eu não os queira dar, tu é que ainda não os queres, será que já estás preparada? Quero que mo roubes, um beijo, tira-mo, não me importo, imploro, quero que me devores, quero sentir-te em mim, ouvir o bater do teu coração quando te inclinas, bem devagar, sem medo, para me beijares. Agarra-me. Arranca-me tudo, menos a esperança de um dia seres minha, de um dia caminhar ao teu lado, junto de ti.

Lembrei-me hoje de amanhã, não sei o que me fez recordar, ainda te lembras como foi, o que sentiste, eu nem posso descrever, não consigo, amanhã foi igual a ontem, mas mais perto, mais um passo em frente de seres minha, não na cama, não te quero na cama (talvez no chão). Se pensas em sexo respondo-te com amor, mas o que é isso de amar, amar é pensar em ti, nunca em mim, é sonhar em sentir as tuas vibrações, que acompanham as minhas, simphonia sentimental, acordes de edilio, mas acordo, acordas-me sempre que podes, quero dormir mas não me deixas sonhar e sem sonhos, sem sonhar contigo, connosco, não durmo.

Lembras-te de amanhã? não? Tens a certeza? Como podes ser assim, tão dura, amanhã derreteste-te toda, como um cubo de gelo nas minhas mãos, aqueci-te, foste ao rubro. Com o gelo percorri todo o teu corpo, tu gritavas com força, eu... eu nem sei o que fazia, não era racional, o instinto tinha tomado conta de mim. Ainda não te lembras de amanhã?

O cheiro da sala, era incenso não era? E teu perfume estava misturado com o nosso prazer, o meu que era o teu e o teu que foi o meu, é o meu! A janela estava aberta, tinha começado a chover, primeiro era pouco, um som de água a regressar à terra, ouvia-se bem. A lareira estava acesa, uma pequena onda de calor contrastava com a brisa e a chuva lá fora. Quase não havia luz, apenas duas velas que tinhas acendido com o meu isqueiro e a lareira, uma luz de fogo. Tinhas aconchegado umas mantas no chão daquela sala, junto à janela e à lareira, lembras-te? Empurrei-te, foste ao chão, não foi da minha força, foi da tua vontade (e da minha). Abracei-te, tu respondeste, a chuva estava mais nervosa, avançava com muita força, o som, que som, quase tão alto como os nossos gritos. Mas a luz da lareira era incerta, a atmosfera era confortável, mas nem eu nem tu a víamos. Só nos víamos e ouvíamos, nada mais existia. Estávamos descontraídos, desinibidos, confortáveis, reparaste como os nossos corpos se encaixam bem? Foram cortados um a pensar no outro, não sei se o teu a pensar no meu se o meu a pensar no teu, mas eu penso no teu, cada poro, cada pelo do teu corpo. Sempre consegui eriça-los, um sopro na curva interna do teu joelho, um beijo na tua axila ou quando coloco a minha língua junto dos teus mamilos (que mamilos os teus), como eles reagem às minha mãos e ao meu corpo. São únicos, os teus que serão meus, em cada momento de amor que nos entregaremos, lembras-te de amanhã, foi nesse dia que te dei beijos onde tu quiseste...


27 Agosto 1999
Amor Radioactivo

A vida corria devagar, chegava e partia à velocidade d’um simples ponto, final. Nada é igual, tudo mudou; de repente a vida caiu, desloca-se, o infinito conforto chego ao fim. Ao fim do quê? Nem sei, o meu amor não é radioactivo, não consegue contaminar, é pena, não é? Perco sempre, perco-me sempre. De pé, sim já caminho, consigo finalmente olhar para ti, já nem és tu mas uma sombra, uma sombra lembrada a cada minuto, cada lugar, cada vitima deste mundo que se alimenta do amor e do ódio. O ódio, palavra que não sinto, sentimento que não digo. Ainda a amo, sempre a amarei, é forte, é simples, é contínuo...

Não sei se voltarei a amar outra, como não sei se voltarei a rir. Evito os nossos lugares, tão poucos, tão fortes, tão vivos. Existe, aliás, uma coisa chamada tempo, que só atrapalha, abafa o que não quero esquecer, transforma-me no que não quero e não posso. A vida é isto, uma correria de sentimentos vazios, até encontrar um que de tão cheio, transborda, arrefecendo a chama, já não me chamas, nunca mais me chamarás, calaste-te, estás muda, em ti, nunca em mim que em mim és eterna, o teu cheiro, o teu ar, que ainda respiro, até quando não sei, apenas respiro.

Foi naquele fim de tarde como podia ser em qualquer fim de tarde, de qualquer mês, de qualquer ano, mas foi naquele, o meu mundo acabou, o teu mudou, que grande mentira, foi o teu que chegou ao fim, sem mim não serás igual, nunca mais, e tu sabes bem disso, não é? Sei que vou morrer mais vezes, tantas quantas te procurar, morrerei sempre. Não vai ser fácil, não é fácil, é irreal, estúpido até, já me estou perdendo embora trema de pensar que posso me encontrar. Ainda não acordei do pesadelo, sonho negro que me devora subitamente, podias ter mentido mas tu não mentes. Enganavas-te a mim, não me importava, tenho frio, vivo a dor de não saber que sou. E ainda sou aquilo que nós éramos, nada mais, simplesmente metade da tua existência, mas metade de quê? de quem? de mim? não consinto que esta vida, a que me mata, caminhe e me ultrapasse. Uma palavra deixa a boca amar, é doce, mas envenena e contamina-me, purga-me dos teus pecados, que foram tão poucos, só um, o mais grave: já não me amares, já não me amas. Sei que me amas, sempre me amarás...

Vou precisar de ti, do teu olhar, lembras-te. As tuas mãos tremiam quando me tocavas ou seria eu que tremia com o toque, nunca precisei saber, nunca saberei. Sinto um remorso, que me consome, não poder ver-te chorar na minha morte, velho. Sei que sou egoísta, pois amo-te sem ti, e tu amarás sem mim, sou estúpido, pois quero que ames, quero-te feliz, não será comigo, será com alguém que nuca saberá ao certo o que é amar-te, é pena. O meu amor não é radioactivo, agora é convulsivo, como a tosse. Sinto o medo de adormecer só, acordar comigo, viver uma existência estupidificante sem o teu amor, merda. Onde estão agora os planos, doce menina, será que sabes que serás sempre minha, nunca te libertarei, jamais.

O amor é intolerável, atrapalha, sinto a barriga a arder, revoltada, até me esquecer de ti, e isso nunca acontecerá. Foram muitos segundos, minutos, horas e meses de recordações, muitos sim’s, alguns talvez e um não, o culpado por estas páginas com sentimentos soltos, desesperados, sem esperança. Sinto vontade de gritar o amor por ti, minha amiga.

A dor que tive não foi tanto por te perder, mas por saber que nunca mais te encontrarei, por mais que estejamos juntos, estaremos sempre sozinhos.

Estou, outra vez, desencontrado, perdido junto do meu corpo que não encontro, todo eu sou teu, levaste-me contigo, quando o meu fim chegar, não conseguirei morrer, só morre quem sente e eu não sinto.

Não sei se te voltarei a procurar, vou partir sem mim, acompanhado da única coisa tua que ainda não libertei... o teu amor.

Mas será o meu amor radioactivo?

2 Agosto 1999
Amor Electrodoméstico

Abri esta noite o frigorifico, lá dentro encontrei tudo aquilo que não se devia encontrar nestes electrodomésticos, uma lata de atum, meio aberta, meia comida. Como eu, frio, porque me esqueci dele. A vida resume-se às latas de atum, compram-se, abrem-se e depois come-se tudo, pois se sobrar estraga-se, o segredo é nunca abrir a lata, assim dura para sempre. Mas nunca se chegará a saber se o atum estada saboroso, este estava, esteve, só que não o comi todo, sobrou, não tapei a lata, ela estragou-se; na realidade não foi o tempo que destruiu o peixe, nem tão pouco o frio, fui eu, que não soube aconchegar a lata, não a tapei, apenas joguei-a para um canto do frigorifico, esperava que estivesse sempre ali, destapada, para mim, a minha maravilhosa lata de atum, não é espanhola, nunca, é bem portuguesa, do Algarve, pelo menos dizia numa pequena inscrição lateral, daquela embalagem linda, prateada, com um homem de barbas a guarda-la. Não consegui deitar fora a lata, ainda, mas não o atum que esse, ah! esse está morto, podre, esse foi fora, que estúpido, não foi em merda, foi em posta, tudo na vida resume-se ao amor electrodoméstico, ao amor simples de quem cuida.

3 Agosto 1999
Ainda

Quantos anos tinhas então, vinte, vinte e cinco, não me lembro mais, eu era um puto, grande, mas um puto, tu tocavas-me como nunca me tinham tocado, eu tocava-te a medo, tu acariciavas-me, sabias onde, e quando, eu só sabia que tinha que tocar-te, mas onde, quando? Ensinaste-me, não a amar, nunca te amei, sempre soubeste, sempre o soube, ainda brincava com bonecas, tu sempre brincaste com bonecos. Aprendi contigo uma verdade, seja ela qual for, mas foi a tua.

Ainda te lembras de mim, como não, fui o teu melhor aluno. Hoje vi-te, conversamos, palavras soltas, ao vento, eu pensei no corpo que já não tens, tu pensaste na vida que já tiveste. Hoje casaste, ontem tiveste um filho, um menino, só teu, lindo, não podia ser meu, nunca, não sabia faze-lo, mas queria, não esse, o teu, mas o outro, o meu, um que me olhasse nos olhos, chorasse, me amasse, pois os filhos amam, para sempre, até morrermos. Gostaria de saber ter filhos. Sim, ainda não sei como se fazem, vou tentando, praticando, sempre, nunca.

Contei-te que morri ontem, hoje sobrevivo, amanhã... esse dia nunca mais chega. Tu contaste-me os problemas: pouco dinheiro, dois filhos, a casa, o carro e a máquina de lavar. Eu contei-te que ainda a amava, tu que tinhas de ir ao supermercado, as fraldas chegaram ao fim. Conversa de merda, vidas reais, a tua, pelo menos, que a minha está irreal.

2 Agosto 1999
Acordar de manhã

No fundo existem algumas certezas, sejam elas quais forem, que importa, tudo é certo até deixar de o ser, por vezes uma pequena luz faz-nos pensar, uma pequena frase deixa-nos acordados. Acordar de manhã, inicio dos inícios, momento de partilha da nossa vida com os outros, aos poucos, tão pouco. Não sei o que é isto, momento de delicada inspiração ou bruta conclusão, será que importa?

Que merda de vida, levamos tanto tempo a nos levantar mas somos acudidos por vezes de forma tão inesperada, ou pelo menos camuflada com um manto de ilusões, tão concretas e simples, mas nada é assim tão simples, uma simples frase, deixa-nos acordados. Acordar pela manhã, um pequeno sol, doce, imitando-me, acorda tão inesperadamente relaxado, assim estou eu, compreendo-me tão pouco, imito-me tantas vezes que penso saber quem sou, o que sou, mas não, nada sei sobre mim, o que ontem pensava ser uma certeza penso hoje não passar de uma ilusão, ainda bem. Não sei se consigo voar, mas sinto hoje uma forte vontade de o fazer, sem rede, permito-me isso. Não sei se estou a voar só... acordei de manhã.

Agosto 99
A~mar

Até ontem amei com toda a força a minha ex-mulher, hoje amo outra, porquê? Será esta vida assim tão fácil? Nada é fácil. Tudo é complicado, aquela colecção de discos de vinil, levaste contigo, eram teus, mas todos os dias os ouvia, o gira-discos ficou, é meu, sei que vais arranjar um novo, eu já estou à procura daquele conjunto de discos, já sei onde ir, aí serão meus, só meus. O amor resume-se a isso mesmo, procurar (e não encontrar) os discos da nossa vida, o importante é ter tempo de ouvi-los, todos os dias, toda a hora.

22 Agosto 1999
Princípios

O carro tinha ficado sem bateria, como fazia frio fomos para dentro de um farol que tínhamos visto ali perto. Era meia-noite, talvez uma. No farol já não tropeçávamos no frio. Era acolhedor, ao centro havia uma pequena mesa de madeira com três cadeiras em redor, uma estava partida, sem um dos quatro pés. Ao lado um sofá vermelho, com uns naprons em cima, em frente uma pequena televisão. Como não estava lá ninguém fomos explorar o interior, encontraste uma pequena porta de metal, entraste, eu fui a seguir, demos com uma escada em caracol, subimos. Chegamos ao topo do mundo, rochas para um lado, mar para outro, no meio nós. Sentíamos a luz do farol aquecer as nossas caras a cada poucos segundos, cada vez que girava. Fazia calor. Lá fora um vendaval subia as rochas e quase nos engolia, era terrivelmente maravilhoso. Um contraste, lá fora tudo revolto, naquela cúpula tudo sereno.

Lá em cima tudo era feito ou de metal ou de vidro. Não havia cortinas, papeis, nada. Só os nossos corpos. Tu olhavas fixamente para mim, eu evitava o teu olhar, não sei porquê, talvez para te provocar. E provoquei-te. Olhei de relance para ti e estavas nua, completamente nua, toda. Não conseguia tirar os meus olhos de ti, cada volta que aquela luz dava iluminava a tua pele, apenas o ruído mecânico do farol interrompia aquele nosso silêncio. Continuaste a provocar-me, em silêncio. Num momento em que a luz não te iluminava deitaste-te no chão, continuavas calada, quando te voltei a ver estavas imóvel no chão daquele farol. Não suportei, tirei a minha roupa e aproximei-me de ti, estava excitado. Dobrei as minhas pernas e beijei-te no ventre, depois no umbigo. Demoradamente. A tempestade aumentava. Uma chuva forte de granizo gritava sobre o vidro, sobre nós. Era assustador. Aquelas pedras de gelo a caírem sobre a cúpula de vidro. Por entre uma pequena escotilha aberta caíram uns quatro cristais, grandes, de gelo. Apanhei o maior. Naquele momento a tensão daquele espaço era grande, mais ruidosa que a tempestade, o calor aumentava. Agarrando o granizo como numa faca, cortei-te, derreti umas três pedras. Não arrefecias. Senti as tuas mãos acariciarem-me, e como, estimulavas-me com prazer, cai para o lado, com determinação deitaste-te sobre mim, senti de repente um calor húmido, tinhas-me feito entrar em ti, estava bom, primeiro mexias-te devagar... A luz circulava sobre nós, assim como a lua, cheia, que brilhava. Êxtase.

A chuva parecia acalmar, o mar também. Umas horas tinham passado, ainda nus víamos o nascer do sol, agarrados, abraçados, deitados de costas a olhar o horizonte. Ainda ficamos assim uma hora. Quando já havia muita luz descemos. Nas escadas avistaste, num recanto de um rochedo, uma pequena praia. Fomos até lá. Era muito pequena, alguns caranguejos andavam de lado pela borda d’água. Quando estavas de frente para o mar agarrei e atirei-te à água, estava boa. Entrei também na água, depois em ti. Aquela água cristalina rodeava os nossos corpos, os nossos pés (não conseguia distinguir quais eram os meus). A água envolvia-nos como um manto, agora apenas as minhas pernas nos sustentavam, as tuas abraçavam-me. Eu estava em ti, tu em mim. Olhávamos nos olhos um do outro, insistentemente, sem os tirar, sem tirar nada. Libertavas gritos de guerra e risos, pouco depois, como uma sereia, submergiste, quando vi onde estavas tinhas-me apanhado, não me mexias, sabia bem, ali na água, contigo...

Quando subiste levei-te ao colo para o pequeno areal. Adormecemos a ouvir o mar, não sei quantas horas dormimos, não as contava, que importa, só as conto quando estou longe de ti. Ali estávamos os dois, estavas lá, comigo. Agora não. Porquê?

30 Agosto 1999
Existêncialidades

A morte espreita a alma do comum mortal, atormenta os seus caminhos, atraiçoa quem não percorre esta vida como se fosse a ultima.

A noite desce na cidade, o pano do teatro da vida cai, finalmente. O ‘eu’ sem vida, atónito, desce para as profundezas da minh’alma, fico só, por segundos penso que o mundo é só meu, que foi feito à minha medida. Fujo então para uma realidade alternativa, para uma dimensão paralela, mas logo regresso a mim. A fulgência da alma é visível.

O stress do dia escorre para a sarjeta, atormentado e apavorado, ratos raivosos perseguem-no, para no fim se dissolverem no putrefacto ar das valas, o musgo é escuro e ganha uma luminosidade forte, extinguindo-se logo depois. A realidade escurece com o musgo, torna-se falsa e estéril.

Percorro atormentado as ruas desta cidade, perseguido pelos meus sonhos. Uma sombra paira sobre a minha cabeça, quero partir, correr, mas os pés não reagem, transformam-se em raízes fortes e profundas. Não aguento a pressão, um vaipe trás à memória as minhas vidas passadas, o processo de autodestruição tem o seu inicio.

Paro no meio da rua, sinto de repente almas de mouros, mortos em batalhas desumanas, os seus pensamentos confundem-se com os meus. Reparo que estou no chão, caído, prostrado no frio da pedra. Reajo, sacudo a minha vida, a omnisciência do meu ser escapa-se-me pelos dedos, começo a correr, mas uma árvore branca nasce na minha frente, os seus troncos hirtos crescem e envolvem o meu ser, um suor frio estala o meu corpo. Consigo-me libertar, entro num túnel, que aperta e orienta os meus passos. No fim, um rasgo de luz orienta-me, caminho para ele, mas o caminho vai crescendo, caio, não consigo lá chegar, tenho pouco tempo, o túnel desaba, levanto-me mas...

15 Setembro 1997
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